acho que não sei amar...
ou não sei amar pouco?
Lembro-me bem:
Era a festa de 15 anos da minha irmã, a família inteira estava reunida, eu e os meus 7 anos de vida estávamos aproveitando muito; dancei, me escondi para comer trufinhas em paz… e aí chegou o momento das fotos. Depois de congelar o mesmo sorriso durante um longo período de tempo, fui para a mesa com os meus pais e, surpreendendo-os, falei: “meu tio deveria tirar uma foto sem a namorada, né? Ele não vai querer ter essa foto quando terminar o namoro”.
Desde então, esse tipo de raciocínio está gravado na minha mente:
nunca vou começar nenhuma relação se conseguir pensar no fim dela.
Veja bem, eu me considero a última romântica, mas nunca estive em um relacionamento. Esse tipo de controvérsia faz total sentido para mim por que sempre fui extremamente realista em todos os âmbitos da vida; sonho como ninguém, mas meus pés estão sempre firmes no chão. No amor não foi diferente; sempre que notava qualquer tipo de interesse de alguém, corria como nunca! Costumava pensar que ninguém tão jovem pode ter tanta certeza do que quer… E na minha brevíssima experiência, eu estava certa. Eram assuntos rasos, pessoas rasas, escolhas malucas… eu não conseguiria caber ali. Não eram para mim. Eles nunca sequer arranharam a minha superfície. Nenhum deles.1
O que nos leva à análise: então… quem?
Deixei esse tema de lado por muito tempo e realmente foquei no essencial para mim. Até que ele apareceu e eu passei a questionar se a análise em questão começava a ser desenvolvida. A resposta é sim… mas não. Sabe aquele papo de “pessoa certa no lugar errado”? Pois bem. O ponto aqui é: eu não via o fim com ele, muito pelo contrário. Eu gostaria de vê-lo nas fotos com a minha família, viver as mais diversas aventuras, queria nossas trocas sobre livros, ansiava pelos dias monótonos, mas que seriam mais lindos se ele estivesse presente. E aí comecei a me preocupar.
Notei que dessa vez, diferente das anteriores, eu não via términos… mas também nenhum início concreto. Sempre estive confortável na idealização, nunca no real. E agora? Se até o momento não fui capaz de amar ninguém, o que faço agora com todo esse amor imaginário? Como lido com toda a indiferença que devo encenar? O que faço com esse emaranhado de sentimentos nunca habitados em mim? Eu queria desfazer tudo. Gostaria de esquecer o nosso “quase” e esquecer toda e qualquer esperança que nutri em vão.
Em Fleabag, a protagonista diz, em uma das cenas mais lindas e sensíveis de todo o seriado, a seguinte frase: “I don’t know what to do with it.” […] “With all the love I have for her. I don’t know where to…put it, now.” (Eu não sei o que fazer com todo esse amor que tenho. Não sei onde o coloco agora). E isso resume bem o que fica depois do fim.
Talvez, todo esse amor que permanece conosco, deve ser visto de um jeito… positivo. Pesquisando sobre esse assunto, percebi que todo o amor que sentimos, pertence, fundamentalmente, a nós mesmos. O outro é como um espelho que o desperta, mas a capacidade de amar, a intensidade, o afeto e toda a energia gasta, nascem no nosso interior. Somos os únicos responsáveis por ele. Então, bom… espero somente que eu seja sábia o suficiente para usufruir com sabedoria.
A Clarice Lispector, em A Descoberta do Mundo, diz “Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca”.
Atenção para “às vezes”. O que sobra de uma relação não correspondida é o que sentimos, correto? Então vamos usá-lo! Vamos olhar para o céu, como Santa Teresinha nos ensina, quando diz: “Para mim, a oração é um impulso do coração, um simples olhar dirigido para o céu, um grito de agradecimento e de amor, tanto do meio do sofrimento como do meio da alegria.” Vamos lembrar que se morre apenas uma vez, mas se vive muitas. Vamos sorrir das piadas simples, vamos conhecer novas pessoas, novos lugares, novas partes de nós mesmos, vamos sentir tudo! Às vezes precisaremos ouvir Purple Rain, do Prince, está tudo bem. Faz parte — mas que não seja algo recorrente.
A Bruna Martiolli, no seu livro de estreia É Tempo de Morangos, fala com precisão sobre o amor romântico na contemporaneidade:
“Eu vejo uma espécie de epidemia afetiva no modo como nos relacionamos, algo que apelidei de “sintomas de Emma Bovary”. Emma é influenciada por romances melodramáticos e ideiais românticos inatingíveis. […] Sofre por desejar um amor que não existe, ou melhor, que só existe na sua imaginação, influenciada pelos livros românticos que lê.
[…] Assim, idealizamos projetamos, exigimos que o outro nos salve do tédio e da incompletude do nosso próprio dia a dia. Quando o outro falha — e ele sempre falha, porque é humano —, ficamos frustrados. Vivemos, então, alternando os momentos de euforia com decepções profundas. É tudo ou nada. Estamos sempre na mesma gangorra.”
Por fim, ela encerra o capítulo 19 dizendo: “Amar é um privilégio, não um padecimento”. E isso define muito bem o que estou tentando dizer.
Nem tudo estará bem encaminhado sempre, mas o nosso olhar pode sempre tender a olhar para o que é bom. Ora, somos jovens! Temos o mundo inteiro nos esperando, não é o fim do mundo — mesmo que pareça, não é. Agora, o objetivo é aprender a distribuir o que sinto. Em palavras, presença e deixando esse tema em um plano secundário mais uma vez, algumas estrelas nunca se alinham.
Pensando melhor, acho que sempre soube amar, mas nunca pouco; ainda bem.
Trecho do poema “In Summation” da Taylor Swift: https://genius.com/Taylor-swift-in-summation-poem-annotated *






Me identifiquei tanto...
“Acho que sempre soube amar, mas nunca pouco; ainda bem.” Que lindo! Ainda bem mesmo